Abigor pousou seu dragão calmamente. Ele mantinha a Borboleta
junto de si, protegida em seus braços. Estava frio, e ele a abraçava com mais
força pra que seu calor pudesse passar a ela. A frágil Borboleta não estava
acostumada com o frio e com o escuro, aquilo a assustava, mas se sentia
imensamente acolhida nos braços daquele demônio, sentia ser ele sua única
salvação naquele minuto.
Ele a levou para dentro da casa, era preciso manter segredo sobre
a Borboleta, qualquer criatura da Luz não era bem vinda às Trevas, e apesar de
todas as criaturas das Trevas o temer, não queria arriscar a vida daquela que
mantinha nos braços.
A casa de Abigor lembrava um castelo, uma porta dupla gigantesca
de madeira bem envelhecida, presa por correntes e com uma cabeça de bode
gigantesca no topo do portal que cuspia fogo pelas narinas. Ao passar pela
porta a princesa se deparou com um hall tão grande quanto ao do castelo do
Reino da Luz. Como poderia um demônio ter uma casa que se equiparava a um
castelo? Ele não era qualquer demônio, pensou ela. Um hall circular, cercado
por colunas de mármore negro, o piso todo entalhado com formas que se
encaixavam num desenho perfeitamente simétrico, olhado de cima parecia com uma
estrela de cinco pontas e um círculo central, tochas estavam posicionadas em
cada uma das cinco pontas da estrela.
Era quase impossível enxergar além das colunas devido à fraca
luminosidade, mas pareciam corredores, corredores tenebrosos que ela realmente
não queria saber onde iriam dar.
Abigor então a colocou delicadamente no centro daquela figura no
chão e começou a acender as tochas. Quando terminou ela pode ver o teto,
pinturas de batalhas sanguinárias estavam gravadas naquele lugar, depois de um
tempo observando ela percebeu que aquelas pinturas contavam uma história, a
história do mundo e como os dos reinos se separaram a milhares de anos. Como
era possível uma história tão grande ser bem contada num pequeno espaço como
aquele e com tamanha riqueza de detalhes? Ela não acreditava, aquele demônio
devia ser muito poderoso, um grande sábio talvez.
Ela temia por sua vida, estar tão debilitada nas mãos de um
demônio assim seria morte na certa, ele poderia fazer o que quisesse com ela,
mas todos esses pensamentos se afastaram quando ele se aproximou do centro do
pentagrama e ela olhou novamente em seus olhos.
Eles ficaram se encarando por um tempo, a sensação que os dois
sentiam era inexplicável, algo realmente novo para ambos. No fundo os dois
sabiam o que era aquele sentimento, mas não podiam aceitar. Como um ser de luz
poderia se apaixonar por um ser das Trevas e vice-versa? Isso era inaceitável,
mesmo se os dois se assumissem seriam condenados e mortos por seus semelhantes
como traidores.
Abigor suspirou e desviou o olhar, ele precisava fazer algo antes
que aquele ser padecesse, mas como? Ele só tinha conhecimentos de magia negra,
provavelmente aquilo seria mortal pra ela, mas ele tinha que tentar.
Ele atravessou o hall e entrou no escuro em um dos corredores, ela
só ouvia o ranger de portas e logo gritos, sons horrendos. Pouco depois Abigor
voltou com um animal em suas mãos, e o segurou no ar sobre a princesa, ele
precisaria do sangue daquele animal para salvá-la. Ao perceber as intenções
dele a princesa gritou:
_ NÃO! POR FAVOR, EU LHE IMPLORO, NÃO FAÇA ISSO!
Ela então se agarrou a ele e seu rosto estava ainda mais pálido.
Abigor pode ver lágrimas de pena do animal brotando-lhe nos olhos, mas ele não
entendia, ele estava prestes a salvar a vida dela, a vida daquele animal era
muito insignificante, mas ela não queria permitir isso, ela preferia morrer a
ver aquele mísero animal perder a vida.
Aquilo comoveu o demônio, COMO ASSIM COMOVEU O DEMÔNIO? Sim, nem
mesmo ele sabia explicar o que acontecia quando estava perto daquele ser de
luz. Em situações passadas ele teria simplesmente decepado sua cabeça naquele
campo da fronteira e bebido todo o seu sangue, mas com ela era diferente, o
cheiro de jasmim que ela exalava o entorpecia, ele sentia uma sensação de
prazer e tranqüilidade que ele nunca imaginou sentir.
Ele afastou cuidadosamente a princesa de seu corpo:
_ Acalma-se, confie em mim.
Abigor arremessou o animal para o corredor, ele não o mataria, não
conseguiria. Mas ele precisava de sangue, sem sangue a princesa não
sobreviveria.
Mas onde arrumar sangue que não seja de outros seres vivos? Foi ai
que ele se lembrou que mais forte e poderoso do que qualquer outro sangue nesse
universo era o sangue de criaturas místicas, das duas criaturas mais poderosas
existentes, os demônios e os anjos. Ele arrancou a parte da armadura que
protegia seu antebraço com toda força e arremessou longe, a princesa o fitava
perplexa sem saber o que estava acontecendo, ao mesmo tempo que ele tirava uma
bela adaga da cintura, toda entalhada com o cabo em formato de cabeça de
dragão, e enfiava no toda a força no braço, rasgando do punho até a dobra do
braço deixando aquilo aberto com cada camada de pele e músculo a mostra.
O sangue literalmente jorrou do braço esquerdo do demônio, aquele
sangue escorreu pelo chão e preencheu cada linha daquele pentagrama, quando a
última linha estava completa ele arrancou um pedaço de sua roupa e fechou o
rasgo no braço. Colocou a princesa que estava cada vez mais pálida novamente no
chão e se dirigiu pra uma das pontas da estrela pegando uma tocha. Encostou a
chama no chão e imediatamente o fogo se alastrou por todas as linhas daquela
figura geométrica. Abigor voltou pra junto da borboleta, agora os dois estavam
no meio de um pentagrama incandescente. Ele ficou parado ao lado dela
conjurando palavras num idioma sombrio e antigo que ela não conseguia
compreender. Quanto mais ele falava mais as chamas aumentavam até tomar todo o
círculo de magia, o único lugar que não pegava fogo era o centro.
A princesa começou a levitar devagar, apesar do medo e da dor que
sentia a presença do demônio lhe dava muita segurança.
Quando ela chegou à metade da altura entre o altar e o teto Abigor
gritou as seguintes palavras:
_ Valignat! IRISV!!! (No idioma dracônico: Queime! CURE!).
Quando ele disse isso às chamas tomaram o lugar, a princesa fechou
os olhos em desespero, não tinha forças para se mover, iria morrer. Mas quando
abriu os olhos à surpresa, ela estava envolta pelas chamas, como se estivesse
numa cápsula. Não sabia por que, mas quanto mais o fogo queimava mais forte ela
se sentia. Sentiu seus ferimentos curando, a dor indo embora, começou a sentir
suas asas novamente, e viu sua luz voltar. Como isso era possível? Ela estava
sendo curada com um ritual da magia das trevas.
Após alguns minutos a chama cessou e ela viu Abigor lá embaixo
trazendo-a de volta para o chão lentamente. Quando ele a colocou no centro do
altar suas pernas fraquejaram e ele caiu desacordado nos braços da bela
princesa...
“Um homem
só encontrou a mulher ideal quando olhar no seu rosto e ver um anjo, e tendo-a
nos braços ter as tentações que só os demônios provocam.”


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